Após a pandemia temos a oportunidade de uma retomada verde das economias, o que garantirá uma sociedade de baixo carbono

Fabio Cirilo é coordenador de Sustentabilidade na Votorantim Cimentos

Estamos em momento ímpar na história da humanidade, a pandemia do Covid-19 nos trouxe a reflexão de como nossa infraestrutura não está preparada para lidar com situações extremas. Tivemos nossas vidas transformadas, modificamos nossos comportamentos diários, nosso ambiente de trabalho e sofremos um grande impacto nas economias globais. Outra reflexão interessante durante o período foi sobre o impacto que causamos ao meio ambiente, nas primeiras semanas de confinamento já podíamos observar uma melhora significativa na qualidade do ar em grandes centros urbanos, além da redução das emissões de gases de efeito estufa e melhoria na qualidade da água. Também circularam fotos na internet de animais silvestres passeando por diversas cidades no mundo, o que nos faz refletir que um mundo com menos poluição seria um mundo melhor a todos nós.

Agora, os países começam a se estruturar para reconstruírem suas economias e no centro dessa discussão se coloca uma outra crise de impacto potencial ainda maior que a pandemia que vivemos: as mudanças climáticas. Cientistas do mundo todo são categóricos em afirmar que o fato de não conseguirmos manter o aquecimento da Terra em um nível seguro, trariam impactos extremos a sobrevivência humana na Terra, como: a subida no nível dos mares, afetando milhões de pessoas que vivem em zones costeiras, o aumento de doenças tropicais como a dengue, a malária e a febre amarela, a escassez de água e as migrações em massa derivadas desses impactos ocasionando conflitos e desestabilização política.

Dessa maneira é mandatório que a reconstrução das economias levem em consideração a transição energética e a uma economia de baixo carbono, temos agora a chance de direcionarmos todos os esforços de criação de empregos e estímulos as economias para desenvolvermos a infraestrutura verde necessária para fazer frente a essa grande ameaça que bate à nossa porta. Temos sinais encorajadores de alguns países, como a Alemanha, Espanha, Coreia do Sul, entre outros, que estão voltando os olhos para estratégias verdes como parte de sua retomada econômica.

 A Espanha, por exemplo, apresentou em maio um plano para zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050. Esse plano que ainda precisa ser aprovado no Parlamento, ambiciona tornar a geração elétrica 100% renovável até o meio do século, ele também bane novos projetos de extração de gás, petróleo e carvão, além de impulsionar a frota elétrica de veículos no país. A previsão do governo espanhol é que o plano impulsione investimentos da ordem de 220 milhões de dólares na próxima década e que gere cerca de 350 mil novos postos de trabalho anualmente. O plano ainda promete incrementar o crescimento econômico espanhol em 1,8% até 2030 em relação ao crescimento esperado sem esse estímulo.

Dessa forma, fica claro que incentivos a descarbonização, eletrificação dos veículos, infraestrutura de transporte público e energias renováveis são uma boa forma de ativar o crescimento das economias e gerar emprego ao redor do mundo, ao mesmo tempo, são soluções importantes para a crise climática que estamos enfrentando.

Nós, do setor de cimentos, temos grandes desafios e grandes oportunidades nesse caminho, nosso produto final: o concreto é um elemento essencial para criação da infraestrutura necessária para nos adaptarmos as mudanças climáticas, além de ser um material extremamente resistente e de alta durabilidade para lidar com os eventos extremos, ele fornece ótimo isolamento térmico em edifícios e rigidez na construção de estradas que reduzem a demanda de energia. O concreto ainda possui qualidades únicas o que permite que outros setores, como o de energias renováveis cumpram suas metas climáticas por meio da entrega de infraestrutura necessária. Para tornar esse produto ainda mais alinhado as necessidades da sociedade, trabalhamos incansavelmente para atingir nossas metas de redução de gases de efeito estufa alinhadas ao acordo de Paris, tendo como ambição a entrega de um concreto neutro em carbono até 2050.

Para isso, trabalhamos em cada região, buscando as maiores alavancas de descarbonização e sabemos que precisaremos de tecnologias de captura e sequestro de carbono para atingir esse desafio, além de um uso massivo de biomassas como combustíveis em nossos fornos. Hoje aproximadamente 11% do combustível que a Votorantim Cimentos consome no mundo vem de biomassas e no Brasil esse número chega a 14%. Aqui fazemos uso de resíduos agrícolas e florestais como casca de arroz, cavaco de madeira e caroço de açaí. Sabemos que o Brasil tem um potencial incrível na Bioeconomia e que o uso sustentável de nossas florestas e da biodiversidade única que essas abrigam, podem gerar grande valor a nossa economia e as comunidades locais. Temos grande potencial para aplicar tecnologia na floresta e gerar alimentos, cosméticos, produtos farmacêuticos, madeira e ainda fazermos o aproveitamento dos resíduos dessas cadeias como combustíveis renováveis.

O recente projeto com o açaí em nossa fábrica de Primavera no Pará, onde consumimos cerca de 90.000 toneladas de caroços que antes iam parar nos aterros sanitários e leitos de rio, é um bom exemplo do potencial que temos para gerar valor com a floresta. Estimasse que um hectare de açaí gere 14 vezes mais retorno financeiro que o mesmo hectare de pasto, e por meio do uso do caroço como combustível nas nossas fábricas, ainda deixamos de emitir cerca de 115 mil toneladas de CO2 na atmosfera.

 É essencial que os países direcionem a retomada de suas economias pós covid-19 pensando em uma retomada verde, precisamos usar essa oportunidade única para fazer a transição para uma sociedade de baixo carbono e a mundo mais limpo, justo e igualitário, que sem dúvida é mundo melhor para todos nós.

– Fábio Cirilo é Coordenador de Sustentabilidade na Votorantim Cimentos